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ENTREVISTA:Suicídio: Devemos Afinar o Debate

02 de julho de 2018

Entrevista com o Dr. Neury Botega
por Mauren Xavier

Há um ano, em função do seriado “13 Reasons Why” e do jogo Desafio da Baleia Azul, foi quebrado o tabu em torno do suicídio e o assunto tomou conta do noticiário. Alertas

sobre sinais e cuidados foram se multiplicando. Mesmo assim, a prevenção ainda é um desafio. Segundo a Organização Mundial da Saúde, são 800 mil casos anualmente. Para o

psiquiatra e especialista no tema Neury Botega, esse é o momento de afinar o discurso. Em visita a Porto Alegre, o professor da Unicamp falou da importância de se ampliar o debate sobre o assunto e reduzir os estigmas e preconceitos diante da saúde mental

Como o senhor enxerga hoje a dis- cussão sobre o suicídio na socieda- de? Os casos de suicídios aumenta- ram, a sociedade está falando mais ou a mídia está noticiando mais?

Tudo. A primeira questão é: estão ocor- rendo mais suicídios ou é um fenômeno de melhoria no registro de óbitos? Ou é um fenômeno de maior difusão pelas re- des sociais e pela imprensa? As três coi- sas estão ocorrendo ao mesmo tempo. Porque mesmo nos estados que sempre ti- veram um padrão internacional de regis- tro de óbitos, como São Paulo e Rio Gran- de do Sul, os números continuam a cres- cer. E eles crescem com mais velocidade entre os adultos do sexo masculino, com idade entre 15 e 50 anos. Isso nos faz pensar sobre as questões muito amplas que envolvem o suicídio, tanto do ponto de vista do indivíduo como da cultura, da sociedade e como ela se organiza.

Então os casos aumentaram?

Os números aumentaram. O que hoje também acontece é que antigamente, se houvesse um suicídio em uma cidadezi- nha no interior de algum estado do Nor- te, a gente não ficava sabendo. Agora a gente fica. Então as redes sociais virtuais também noticiam mais o suicídio. Além do mais houve, em 2017, as “13 Razões” (“13 Reasons Why”, seriado produzido pe- la plataforma Netflix) e a Baleia Azul. En- tão o suicídio foi um assunto que bateu na porta da classe média. E aí o fenôme- no, que era mantido embaixo do tapete e que parecia que eram só os pobres que se matavam, estava na mídia. Mesmo por

caminhos tortuosos, o seriado e a Baleia Azul provocaram esse efeito de aumentar a consciência pública sobre o assunto. En- tão estamos numa fase muito interessan- te de ficarmos o tempo todo lendo sobre o suicídio e aprendendo mais. No entan- to, é claro que deverá haver, a partir de agora, um aprimoramento, inclusive na comunicação. Porque antes não faláva- mos nada e agora falamos muito.

Há diversas maneiras de falar sobre o suicídio, mas ainda há uma preocu- pação muito grande. Isso colabora ou prejudica?

Temos que cuidar para não resvalar no moralismo e determinismo simplista, que culpam a crise econômica, a falta de fé e a deterioração da família. Na verda- de, é um monte de coisas juntas e que se combinam. Sendo um fenômeno comple- xo, o ideal é falar em motivações, não em causas. Então, o que está acontecendo? O Setembro Amarelo é uma coisa que co- meçou há três anos e, no ano passado, chegou de um jeito fantástico, ganhou uma visibilidade enorme. E isso muda tu- do. O assunto toma outra dimensão. As pessoas passam a falar e isso tira os mi- tos. O que a gente precisa é corrigir o dis- curso. Uma das mensagens que são cons- tantemente veiculadas é “fique atento aos sinais”, “fique atento”. Imagina você ser pai ou mãe de um adolescente e nin- guém viu os sinais. Temos que tirar do Setembro Amarelo essa questão da cul- pa. Porque acabou se tornando um infer- no para os familiares que perderam al- guém por suicídio. O remoer será eterno.

É algo que marca e se carrega para a vi- da inteira. Então, às vezes, o discurso cul- poso e moralista é prejudicial na discus- são da prevenção.

Está errado falar em sinais?

Não está errado. Eu também falo. A questão é colocar uma tabela simplifica- dora. Esses sinais podem dizer muitas coisas. Podem representar uma depres- são ou apenas um “levei um pé na bun- da”. Mas, na prática, alguém pega a tabe- la e simplifica. É isso que chamo de uma simplificação e de um exagero. Por exem- plo, baseados em que as pessoas saem fa- lando que 90% dos casos podem ser evita- dos? A origem é um artigo científico, que ninguém foi ler. E daí se generalizou es- se conceito.

Na trajetória social, a percepção do suicídio passou por mudanças, da mais punitiva para mais tolerante. Há um caminho mais adequado?

O suicídio sempre existiu. E sempre vai existir. E se a gente olhar a preven- ção como uma ação de controle e de im- pedimento, não ajuda. Temos que olhar a prevenção como um acolhimento da pes- soa. Uma escuta respeitosa. Como uma possibilidade de significar um pouco aquele sofrimento. Mas também não va- mos ser românticos. Há quem se mata no auge de um transtorno mental. O esquizo- frênico. Assim, há vários casos de suicí- dio. Não podemos falar de apenas um ti- po de suicida. Outra coisa que temos que combater é a existência de um perfil do suicida. Isso não existe.

Esses extremos entre o falar muito, silêncio e o voltar a falar não contri- buem no combate ao estigma, que é muito grande na sociedade.

Nós estávamos na fase do silêncio. Ago- ra estamos na fase do falar. A questão do estigma está ligada de um modo muito amplo às minorias, às pessoas que trans- gridem à ordem e à norma social. Por is- so que existem estigmas em relação a ou- tros casos, como aos negros e aos gays. O suicida afronta uma ordem natural. Agora, é preciso lembrar que o suicídio é um problema de saúde pública, porque uma parcela grande dos casos tem um transtorno mental, principalmente depres- são e transtorno bipolar. Não quer dizer que todo o transtorno mental causa suicí- dio e não quer dizer que só há suicídio se houver um transtorno mental. Não é as- sim. Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) percebeu que o número de pessoas sofrendo de depressão aumenta- va, que o número de pessoas dependen- tes de substâncias químicas aumentava e que paralelamente o suicídio também au- mentava, foi feita essa ligação.

Quando falamos da sociedade, falta também aumentar a importância que damos à influência dela nos ca- sos de suicídio?

Falta e como falta. Por exemplo, a co- munidade LGBT se mata muito, assim co- mo, no passado, o paciente com HIV posi- tivo. Quando diminui o estigma e aumen- ta a tolerância você tem um decréscimo dos casos. Vimos isso com os pacientes com HIV/Aids. Provavelmente vamos ter, com o tempo, um número menor de ca- sos de LGBT. A sociedade, e como a so- ciedade se organiza, é um dos fatores que leva uma pessoa ao suicídio. O clássi- co do (Émile) Durkheim (“O Suicídio: Es- tudo Sociológico”) tem leitura fácil e se- gue muito atual. Ele está cheio de críti- cas, mas ele está mais vivo do que muito sociólogo gostaria de estar. E qual a ra- zão? Porque ele escreveu uma grande obra. Deu um grande salto. O suicídio é sim um fato social e Durkheim defendeu isso. Assim como (Albert) Camus (“O Mi- to do Sísifo”), ao diz que sofrer é parte da natureza humana.

Muito se fala em buscar ajuda profis- sional, mas há problemas em rela- ção aos tratamentos, especialmente na rede pública.

O atendimento na rede pública é duro, porque não temos bons serviços que pos- sam acolher crises humanas. A gente tem serviço de pronto-socorro que atende a um politraumatismo decorrente de um acidente de trânsito, por exemplo. Mas não temos um bom serviço de saúde men- tal que possa acolher pessoas que estão tendo um agravamento de uma doença mental, que estão com uma doença men- tal aguda pela primeira vez ou um jovem que não está bem e precisa de um profis- sional para ajudá-lo. Esse é outro drama do Setembro Amarelo que a gente está problematizando. Vamos aumentar a consciência pública e a competência da sociedade para poder acolher e ajudar. Estamos nessa fase que é a da conscienti- zação. Ao mesmo tempo temos a etapa da competência. Os chamados CAPs (Cen- tros de Atendimento Psicossocial) não dão conta. Eles funcionam precariamen- te. Muitos sem psiquiatras. O serviço pú- blico neste ponto ainda tem muitas defi- ciências e não é exclusivo na saúde men- tal, mas em todo o sistema. Os CAPs fo- ram uma proposta interessante para ti- rar o foco hospitalar. Muito legal. Mas não estão aparelhados. E quem executa um papel belíssimo no Brasil é o CVV (Centro de Valorização da Vida). Serviço nacional, de voluntariado e que treina muito bem, confiando na potencialidade

de uma pessoa de ouvir com atenção e sem julgar. Essa é a ideia que tenho de prevenção, é o acolher. Mas eles não fa- zem uma coisa, até porque não é a fun- ção deles, que é encaminhar para atendi- mento clínico. É uma escuta amorosa. Is- so já é tratamento. Claro que, se uma pes- soa está deprimida ou com transtorno bi- polar, ela vai precisar de atendimento médico. E aí bate de novo na questão das portas fechadas ou do serviço precário.

Quais exemplos de ações desenvolvi- das fora do país que têm surtido efei- to na prevenção?

As técnicas são diferentes. Mas há mui- ta coisa boa e louca. A Coreia do Sul, on- de está estourando a questão da preven- ção, eles colocam jovens por dez minutos em caixões e pedem para eles fazerem um testamento. Os países que se organi- zaram bem e conseguiram reduzir os nú- meros de suicídio geralmente treinam agentes de saúde e médicos generalistas a detectarem precocemente e tratam ade- quadamente os casos de alcoolismo e de- pressão. Eles incentivaram nas escolas programas para tornar os jovens mais to- lerantes em relação às minorias e às di- versidades. É a noção de que o sofrimen- to faz parte da vida. No Brasil tem ocorri- do uma coisa interessante, que é o treina- mento de agentes da área da segurança. Uma experiência é a dos bombeiros do estado de São Paulo, que estão treinando os seus profissionais para atender quem está em uma ponte ou um prédio. O trei- namento não é para dar o bote e humi- lhar, mas para conversar e fazer a pes- soa esperar um pouco. O que é muito in- teressante. Particularmente, fico muito fe- liz, porque hoje temos muita gente falan- do sobre suicídio. Isso é prevenção. Os países que fizeram boa prevenção não ba- searam a prevenção unicamente no pro- fissional de saúde. Eles foram trabalhar com professores e com aqueles que estão na linha de frente do atendimento.

Outra frente é impedir o acesso aos meios. A pessoa tem uma ideia do que é a morte dela e o que vai acontecer. Ela tem uma ideia de como fazer isso. Se não tem mais aquele meio que imaginou, ela tem um tempo a mais para pensar. E mu- dar de ideia. Isso é prevenção também.

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